Opinião Jaime Melo Baptista: "A água e a cimeira de Paris"

30.11.2015

Na 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que agora se inicia em Paris, centena e meia de delegações de todo o mundo tentam acordo para limitar o aumento de temperatura a 2ºC. Os atuais compromissos de redução de emissões de gases com efeito de estufa não são suficientes para atingirem esse objetivo. De acordo com as previsões, conduzirão a um aumento da temperatura média global de 2,7ºC.

 

E o que está em causa no que respeita à água? Sabemos que existe uma fortíssima correlação entre alterações climáticas e recursos hídricos, bem como serviços de águas. Apesar de as alterações climáticas terem costas largas e servirem frequentemente para encobrir erros básicos de má gestão urbana, por exemplo.

 

No continente europeu prevê-se o aumento de escassez hídrica e de secas no Sul, Centro e Leste e o aumento geral do risco de inundações. Mais fenómenos extremos, portanto. E Portugal não fica confortável na fotografia. O aumento médio da temperatura será superior ao das restantes regiões europeias e a precipitação anual diminui em média.

 

Os fenómenos extremos, como precipitações de curta duração, intensas e destruidoras, tenderão a aumentar, provocando inundações. Os rios tenderão a ter menor caudal, sobretudo no verão, com escassez de água e respetivas consequências na agricultura e alimentos, aumentando a desertificação. Haverá danos irreversíveis nos ecossistemas, menor produção hidroelétrica, maior risco de fogos florestais e de vetores transmissores de doenças tropicais. A circunstância de o turismo de inverno poder ser beneficiado é naturalmente uma fraca consolação.

 

A nível global, escassez de água e de alimentos, cheias e secas frequentes poderão induzir danos irreversíveis nas economias e nas comunidades humanas, com o aumento de conflitos e de refugiados.

 

Exagero? O Program on Sea Level Rise - Climate Central prevê no post 2100 que, para um aquecimento de 4°C correspondente à ausência de medidas, o aumento do nível do mar transforme a famosa Porta da Índia em Bombaim numa ilhota do Índico. E se o aquecimento for de apenas 2°C, o limiar desejado para evitar uma mudança climática catastrófica, o monumento continuará a ficar dentro de água. Quanto a Londres, terá o Parlamento e o Big Ben inundados em qualquer dos cenários.

 

As cidades portuguesas, que se desejam mais inteligentes e resilientes, necessitam de medidas de mitigação e adaptação às alterações climáticas, incluindo a aplicação aos serviços de águas. É fundamental a recolha, o processamento e a divulgação de dados de alterações climáticas. É necessário investir em investigação sobre previsão, incertezas críticas, prevenção e gestão de riscos. São necessárias medidas. É necessária melhor informação institucional e de domínio público. Há que atuar já.

 

Provocação do mês: As entidades gestoras de serviços de águas já terão a perceção da sua grande vulnerabilidade às alterações climáticas? Ou pretendem continuar a sua atividade como habitual? Não será de seguirem o exemplo da EPAL e de alguns municípios, que começam a desenvolver estudos específicos nesse domínio?

 

Jaime Melo Baptista, engenho civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC e Presidente do Conselho Estratégico da PPA. É membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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