Opinião Jaime Melo Baptista: À água da torneira não basta ser, deve também parecer excelente!

11.06.2018

Há algum tempo a EPAL apresentou a Garrafa Siza – Lisbon Soul, da autoria de Álvaro Siza Vieira, para promover a água da torneira, numa parceria com a Associação da Hotelaria de Portugal. Esta excelente iniciativa pretendeu contribuir para a afirmação da cidade de Lisboa como destino turístico sustentável que, tal como outras capitais europeias de primeira linha, promove o consumo da água da torneira.

 

No passado dia 22 de março, Dia Mundial da Água, a EPAL associou-se com o Centro Cultural de Belém e, depois, com a Fundação Cidade de Lisboa, para lançar a garrafa Lisbon Tap Water Bottle. Pretende-se mudar os hábitos de consumo não só dos portugueses mas também dos estrangeiros que nos visitam, incentivando-os a beberem água da torneira.

 

Assim o Centro Cultural de Belém passou a disponibilizar água da torneira nas suas salas de congressos. Aconteceu já durante a 8.ª Cimeira Internacional da OCDE sobre Profissão Docente, um encontro internacional que visa realçar a importância da profissão docente e o seu papel no sistema educativo e na construção de uma sociedade melhor.

 

Também a Fundação Calouste Gulbenkian passará a disponibilizar água da torneira nos seus auditórios e salas de congresso, refletindo a confiança nos serviços de abastecimento do País e da capital, afirmando com orgulho que se pode e deve consumir a água da rede pública em Portugal.

 

Estas iniciativas complementam muito bem diversas outras campanhas de sensibilização de entidades gestoras e da própria entidade reguladora desde há uma dúzia de anos, quando se atingiram atingimos valores acima de 95%, partindo de valores de 50% há vinte e cinco anos. A evolução da qualidade da água para consumo humano em Portugal é um facto notável e os quase 99% atuais devem-nos orgulhar a todos.

Mais do que isso, podem e devem ser utilizados, sem qualquer acanhamento, para promover a nossa economia, por exemplo, no setor do turismo. Mas para isso é útil relembrar a história.

 

Pompeia, mulher de Júlio César, vivia muito só sozinha, enquanto o marido viajava com os seus exércitos. O jovem Clodius, admirador dessa mulher jovem e muito bela, tentou então aproximar-se dela, entrando no palácio disfarçado de tocadora de lira, mas acabou por se perder pelos corredores e foi descoberto e preso.

 

No julgamento, César foi convocado para testemunhar, mas declarou ignorar o que se dizia sobre sua mulher e considerou-a inocente. Como resultado, Clodius foi absolvido, mas Pompeia não se livrou do ostracismo e do repúdio do marido, que decretou o divórcio. Perante o espanto geral dos senadores, por ele defender a mulher no tribunal e condená-la em casa, Júlio César terá afirmado algo como “À mulher de César não basta ser séria, deve também parecer séria”. Este dito do ano 60 a.C. mantém-se atual e aplicável ao nosso tema. À água da torneira não basta ser excelente, deve também parecer excelente.


Provocação:

Passar essa mensagem não é fácil e as iniciativas aqui referidas mostram como é possível trazer uma enorme mais-valia na comunicação com a sociedade. Seria excelente que todas as entidades prestadores de serviços de água em Portugal, em articulação com os diferentes agentes locais do setor económico, seguissem estas boas práticas. Para que a excelência da sua água da torneira não seja do desconhecimento de quase todos. É fácil, barato, e com enorme impacto. Qual é o turista que não gosta de saber que pode beber tranquilamente água da torneira no país e no local onde passa as suas férias?

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do projeto Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018 em Brasília. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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