Opinião Rui Berkemeier (Resíduos): Governo dos Açores quer TMB em S.Miguel

17.04.2017

No âmbito de uma reunião realizada há dias em Ponta Delgada, a Secretária Regional do Ambiente dos Açores informou uma delegação composta pelo Movimento Salvar a Ilha e várias associações de ambiente que o Governo Regional considera fundamental que a montante do incinerador previsto para aquela ilha seja instalada uma unidade de Tratamento Mecânico e Biológico de forma a que seja cumprida a meta de 50% de reciclagem em 2020.

 

Esta posição do Governo Regional obriga a obter a garantia do financiamento urgente deste equipamento de forma a que em 2020 o sistema esteja completamente operacional e há indicações de que esse financiamento está no bom caminho.

 

Mas se vai ser instalado um TMB, então há naturalmente que redimensionar a unidade de incineração complementar, uma vez que um TMB moderno pode facilmente reciclar 50% dos resíduos processados.

 

Neste momento, segundo informação do Governo Regional, a unidade de incineração está dimensionada para cerca de 80 mil toneladas, quantitativo que face a esta nova realidade está claramente sobre dimensionado.

 

Com efeito, em relação os resíduos urbanos, utilizando os dados de 2015, verifica-se uma produção de resíduos urbanos de 73977 toneladas, das quais 13152 são recicladas, sobrando 60825 t de resíduos a encaminhar para o TMB. Considerando uma taxa de reciclagem de 50% no TMB pode-se assumir que os resíduos urbanos a necessitar de tratamento final rondarão as 30 mil toneladas.

 

Paralelamente, o projeto prevê o processamento de 10 000 toneladas de Sub-Produtos de Origem Animal (SPOA) os quais não necessitam de incineração e poderão ser utilizados para o fabrico de comida para animais de companhia (Pet Food) tal como é feito no Continente.

 

Também se prevê a incineração de 15 mil t de biomassa florestal, ideia que não faz qualquer sentido, dados os custos de recolha destes resíduos e devido ao facto de existirem outras soluções para a biomassa muito mais baratas do que o seu envio para uma unidade cara dedicada à incineração de resíduos complexos como os urbanos.

 

Finalmente é referida a existência de 6 mil toneladas de outros resíduos, nomeadamente pneus que deveriam ser enviados para reciclagem através da Valorpneu e ainda de RIB que não estão devidamente caracterizados e que muitos dos quais são recicláveis.

 

Concluindo, com o TMB e uma abordagem correta para os SPOA, a biomassa florestal, os pneus e os RIB, para além de um natural aumento da recolha selectiva, será de apontar para um quantitativo de resíduos a necessitar de destino final da ordem as 30 mil toneladas, ou seja menos de metade do valor para o qual está a ser dimensionada a unidade de incineração, pelo que é urgente a revisão deste projeto.

 

Provocação do mês: As milhares de toneladas de Resíduos de Construção e Demolição, resultantes das obras em Lisboa serão encaminhadas para reciclagem, de acordo com os novos (velhos) princípios da economia circular ou vão encher mais um areeiro ou pedreira?  

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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