Opinião Rui Berkemeier: Solos contaminados no Parque das Nações – O caso do Hospital CUF Descobertas

13.02.2017

A recente situação da ocorrência de poluição atmosférica originada pelas obras de construção de um parque de estacionamento do Hospital CUF Descobertas, no Parque das Nações em Lisboa, veio evidenciar uma vez mais as fragilidades que caracterizam os estudos geotécnicos que antecedem este tipo de obras, nomeadamente em relação à avaliação da existência de solos contaminados.

 

No caso em apreço, o estudo estimou a existência de apenas 2 a 3 mil m3 de solos contaminados com hidrocarbonetos, mas classificados como resíduos não perigosos. No entanto, após a escavação, verificou-se que afinal foram retirados cerca de 11 mil m3 de solos contaminados com hidrocarbonetos, dos quais cerca de 6 mil m3 de solos considerados resíduos não perigosos e cerca de 5 mil m3 de solos considerados como resíduos perigosos.

 

A consequência desta má avaliação estão a sofrê-la há cinco meses os habitantes da zona envolvente desta obra que têm vindo a respirar os gases, provavelmente tóxicos, gerados pela volatilização dos hidrocarbonetos existentes nesses solos.

 

Paralelamente, foi identificada a descarga num coletor pluvial das águas residuais provenientes desta obra, as quais acabam por afluir ao rio Tejo na zona da marina, sendo notório o odor a hidrocarbonetos nas sarjetas e na margem do rio.

 

Mais grave, no entanto é que há vários relatos da ocorrência de fortes odores em algumas caves dos edifícios adjacentes, o que indicia uma disseminação dos gases para além do expectável.

 

No entanto, a obra nunca foi parada para avaliação da situação e encontra-se praticamente concluída, apesar de ter sido possível constatar a existência de solos escuros e com forte odor a hidrocarbonetos abaixo da quota onde está o piso inferior deste parque de estacionamento, o que indicia que sejam solos contaminados que vão ficar no mesmo local, constituindo um forte risco de futura migração dos gases para este edifício ou para edifícios adjacentes.

 

Depois de várias queixas dos moradores, de partidos políticos e de organizações ambientais, a CCDR deslocou-se finalmente ao local, numa altura em que a obra estava praticamente concluída, tendo posteriormente emitido um comunicado que foi divulgado pela APA, referindo que tinha exigido à empresa em causa que realizasse um estudo à qualidade do ar da envolvente da obra e aos solos que ficaram na quota inferior ao parque de estacionamento.

 

No entanto, surpreendentemente, sem ter qualquer tipo de análise (do ar ou dos solos) em que se basear, a CCDR conclui que “numa análise preliminar considera não existirem riscos para a saúde e o ambiente”.

 

As questões que importa agora colocar é perceber como é que a CCDR pôde demorar tanto tempo a responder a uma situação grave como esta e como é que a APA permitiu a divulgação daquele comunicado sem existir qualquer informação técnica que permitisse garantir que, para já, não existiam riscos para a saúde e o ambiente quando, na realidade, muito cidadãos têm estado diariamente sujeitos à inalação de gases potencialmente tóxicos.

 

É caso para dizer que o Ministério do Ambiente sofre de algum tipo de esquizofrenia, uma vez que promoveu o alarme social aquando da importação banal de resíduos urbanos de Itália e agora que estamos a falar da libertação de gases com hidrocarbonetos junto a um hospital, escola e zona habitacional e comercial diz que não se detetam riscos alguns.

 

Provocação do mês: Como é que o Ministério do Ambiente vai conseguir fazer conviver a sua estratégia para a economia circular com a aprovação do financiamento de um incinerador de resíduos urbanos em S.Miguel nos Açores sem qualquer pré-tratamento para separação de materiais recicláveis e valorizáveis organicamente, num projeto que vai gastar 20% das verbas que Portugal dispõe até 2020 para atingir as suas metas de reciclagem?  

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

TAGS: Opinião , Rui Berkemeier , resíduos , Zero , solos contaminados
Vai gostar de ver
VOLTAR