Paulo Rodrigues (Resíduos): PAYT, RAYT/SAYT têm tudo para vingar…ou não

29.06.2020

Uma das questões que mais me tem feito refletir na gestão de resíduos é o Comportamento Humano.

 

Se efetivamente muitas cidades e regiões têm hoje uma rede consolidada de sistemas de deposição e recolha seletiva de resíduos, se há mais de 25 anos que existe, de forma continuada, campanhas de comunicação e sensibilização, se na últimas duas décadas foram feitos investimentos e apoiados de forma significativa inúmeros projetos e iniciativas porque é que, o nosso país, não consegue ter Taxas de Reciclagem de Resíduos minimamente aceitáveis?

 

A psicologia humana demonstra que os estímulos que levam a recompensas criam hábitos e, portanto, efetivamente estes sistemas (PAYT, RAYT/SAYT) têm tudo para vingar…ou não

 

Já não se trata de ter os meios ou recursos. Trata-se do Comportamento e infelizmente do nosso comportamento enquanto cidadãos.

B.F. Skinner ensinou-nos que os estímulos que levam a recompensas criam hábitos. Se somos recompensados quando fazemos algo é provável que o voltemos a fazer.

 

O setor dos resíduos em Portugal irá, para breve, assistir a uma alteração significativa no modus operandis. A julgar pelas candidaturas financiadas, veremos proliferar por todo o país um conjunto de projetos que terão como ideia base a aplicação de sistemas de compensação ou penalização do produtor de resíduos seja, através dos sistemas PAYT (Pay as You Throw), RAYT/SAYT (Receive/Save as You Throw) ou mesmo através dos sistemas SDDR (Sistemas de Devolução, Depósito e Retorno).

 

Sempre fui um grande defensor do sistema PAYT. Trata-se de um sistema justo e equitativo que permite ao produtor refletir o seu comportamento na sua taxa de gestão de resíduos mensal dissociando-a de outros indexantes comumente utilizados como o consumo de água ou permilagem da habitação.

 

Em paralelo, a psicologia humana demonstra que os estímulos que levam a recompensas criam hábitos e, portanto, efetivamente estes sistemas (PAYT, RAYT/SAYT) têm tudo para vingar…ou não.

 

A implementação do sistema PAYT baseia-se no uso de instrumentos económico-financeiros para promoção da prevenção e reciclagem de resíduos. Com o princípio de que, quanto mais reduzir a produção de resíduos e garantir a correta separação menos se irá pagar pelo resíduo indiferenciado. Pretende-se, com estes projetos, fomentar o ecoconsumo, a prevenção e a reciclagem. Curiosamente os sistemas RAYT/SAYT objetivam a recompensa pela boa prática de separação (quanto mais separar mais vai ganhar) mas não atuando ao nível do primeiro eixo – Prevenção de Resíduos. Na verdade, nos sistemas RAYT/SAYT quanto mais lixo reciclável colocar no contentor certo, mais vou ganhar.

 

Bem sei que quanto mais próximo estamos das “Metas” mais acreditamos em soluções milagreiras. “Um homem, quando o fim espera, em tudo teme e em tudo tem esperança”, mas causa-me alguma apreensão que, na futura implementação destas soluções, as ineficiências dos processos de gestão sejam transferidas para o cliente final.

 

Implementar sistemas desta natureza impõe, de forma obrigatória e prévia, atuar na otimização das recolhas, em maximizar o potencial ainda existente com os sistemas de recolha seletiva (ecopontos e porta-a-porta), em adaptar ou reconverter as viaturas de recolha (atuando ao nível da descarbonização e redução de custos), informatizando e criando sistemas de gestão de dados ou mesmo criando uma estrutura e organização de recursos humanos que permita dar resposta “ao que aí vem” correndo risco de, se não se fizer, estar a custear ineficiências do sistema e que, naturalmente, serão refletidas para o consumidor final com o agravamento de tarifas.

 

Skinner afirmou que os estímulos que levam a recompensas criam hábitos, mas, os estímulos que criam penalizações também criam hábitos. 

Oxalá os estímulos estejam todos alinhados e de que sejam efetivamente indutores de novos comportamentos…é que não se vislumbram mais soluções milagreiras.

 


Paulo Rodrigues é Engenheiro do Ambiente formado pela ESB/UCP com Formação Avançada em Ordenamento da Cidade e Ambiente - UA e Formação Geral em Gestão para a Excelência - PBS. Com um percurso alargado na área de Gestão de Resíduos, desenvolveu e implementou Sistemas de Gestão em diferentes setores de atividade sendo de destacar o setor Residencial, Não-Residencial, sector da Construção e Demolição, Estádios de Futebol, Canal Horeca, Zonas Industriais, PAYT, Prevenção de Resíduos e Gestão de Resíduos em Eventos entre outros. É atualmente Secretário da Comissão Técnica Resíduos – CT209 e tem o registo de Inventor da Patente de Invenção Portuguesa Nº 106819 - “SISTEMA E PROCESSO DE DEPÓSITO E RECOLHA DE RESÍDUOS” COM RECURSO A IDENTIFICAÇÃO DO UTILIZADOR.

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