Paulo Rodrigues (Resíduos): Pós-Pandemia: O Crescimento Suportado no Green Deal

14.04.2020

Foram mais de 10 países, incluindo Portugal, que assinaram recentemente uma petição para que a recuperação económica, uma vez superada a pandemia da covid-19, decorra sob um "pacto verde".

 

Esta petição enfatiza que, ainda que a prioridade seja a luta contra a doença (covid-19) e as suas consequências imediatas, a preparação da reconstrução económica deve introduzir os planos de recuperação necessários para trazer progresso e prosperidade renovados e sustentáveis para a Europa e os seus cidadãos.

 

Redefinir a forma como produzimos, distribuímos, reciclamos e fazemos crescer a economia dissociando-a do uso de recursos é a ideia transversal a todas as ações propostas no Green Deal que, suportado em 10 pilares, que sustentam 50 iniciativas, propõe um novo modelo de crescimento para a União Europeia onde o objetivo central é a preservação do planeta.

 

“Não podemos continuar a ser o setor que apenas objetiva a reciclagem, descurando nas suas estratégias e financiamentos, a Prevenção e Ecoconsumo, a Economia da Partilha, da Reutilização ou mesmo do Ecodesign”.

A par da estratégia industrial, um novo plano de ação para a economia circular incluirá o desenvolvimento de mercados-piloto no domínio dos “produtos sustentáveis” para apoiar a conceção “circular” dos produtos. Será dada prioridade à redução e à reutilização de materiais.

 

Neste cenário surge, pois, algumas reflexões que a dura realidade nos obriga a considerar:

 

  • Estes tempos de pandemia vieram demonstrar que a diabolização que se fez aos plásticos de Uso Único necessita de uma nova visão pois, afinal, não são assim tão maus quando se trata da nossa segurança.
  • A Digitalização e o uso das novas tecnologias não vão precisar de anos para se implementarem em Portugal.
  • A população Portuguesa ficou mais sensibilizada para a gestão de resíduos e necessidade de termos comportamentos mais sustentáveis.
  • O modelo de crescimento, a forma individualista como as empresas e indústrias se organizam, é efetivamente prejudicial e mais sujeito a riscos externos.

 

Sendo estas algumas das reflexões que vale a pena refletir é importante que, no cenário pós-pandemia, o setor dos resíduos reestruture a sua estratégia futura.

 

Qual o papel que o setor quer privilegiar no novo crescimento económico, baseado nos princípios da Economia Circular?

 

Não podemos continuar a ser o setor que apenas objetiva a reciclagem, descurando nas suas estratégias e financiamentos, a Prevenção e Ecoconsumo, a Economia da Partilha, da Reutilização ou mesmo do Ecodesign.

 

À semelhança de muitas das nossas empresas, o setor dos resíduos também é individualista, compartimentado e muitas vezes autista à evolução e exigências do mercado.

 

"Estes tempos de pandemia vieram demonstrar que a diabolização que se fez aos plásticos de Uso Único necessita de uma nova visão (...)".

Uma estratégia integrada de Recursos e Resíduos impõe, obrigatoriamente, uma integração com os 3 setores de atividade em Portugal e será, na assunção plena de que não tratamos resíduos, mas valorizamos recursos, que será possível valorizar o potencial que temos.

 

Para já, o que temos assistido é um tratamento de fim-de-linha, a reciclagem como setor que fornece matéria-prima (muitas vezes para mercados externos).

 

Mas agora façam as perguntas a vocês próprios:

 

- Quantas empresas em Portugal, devido ao encerramento dos mercados internacionais e atrasos nas exportações, não viram as suas produções diminuir ou mesmo parar por falta de matéria-prima?

 

- Qual pode ou deve ser o papel do setor dos resíduos e de que forma temos (ou não capacidade) para criar uma economia circular em Portugal?

 

Falta, certamente, elementos neste “ciclo”. Mas se há algo que esta pandemia nos deverá ensinar é orientações claras do que faltou, o que deveremos fomentar e apoiar para que, e oxalá esteja enganado, numa próxima vez, estejamos mais bem preparados e estruturados.

 

A reconstrução económica deve trazer progresso e prosperidade renovados e sustentáveis.

 

Identifiquemos o que nos faltou no passado para que o futuro seja, efetivamente, mais sustentável.

 

 

Paulo Rodrigues é Engenheiro do Ambiente formado pela ESB/UCP com Formação Avançada em Ordenamento da Cidade e Ambiente - UA e Formação Geral em Gestão para a Excelência - PBS. Com um percurso alargado na área de Gestão de Resíduos, desenvolveu e implementou Sistemas de Gestão em diferentes setores de atividade sendo de destacar o setor Residencial, Não-Residencial, sector da Construção e Demolição, Estádios de Futebol, Canal Horeca, Zonas Industriais, PAYT, Prevenção de Resíduos e Gestão de Resíduos em Eventos entre outros. É atualmente Secretário da Comissão Técnica Resíduos – CT209 e tem o registo de Inventor da Patente de Invenção Portuguesa Nº 106819 - “SISTEMA E PROCESSO DE DEPÓSITO E RECOLHA DE RESÍDUOS” COM RECURSO A IDENTIFICAÇÃO DO UTILIZADOR.

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