Peças Lopes: Gestão ativa da procura de eletricidade como facilitador para integração das renováveis

28.11.2017

O funcionamento do Sistema elétrico foi sempre caraterizado por uma situação onde a oferta seguia a procura, sendo os recursos de geração despachados e ajustados para satisfazer a evolução da procura. Era comum dizer-se que a procura de eletricidade era inelástica, não reagindo sequer ao preço. Assim, no funcionamento do mercado diário de eletricidade bastava conhecer a previsão do consumo por posto horário, ficando o preço de mercado definido na interseção da curva de oferta (quantidades e preços) com a reta da procura para cada posto horário.

 

Ocorre que nos últimos anos a produção de eletricidade passou a ter uma importante componente de produção variável no tempo, em resultado do grande volume de produção com origem em recursos primários renováveis como o vento e o sol. Tal obrigou a que a oferta evoluísse no sentido de oferecer cada vez mais serviços de sistema de reserva, associados a uma maior flexibilidade de operação por parte da geração convencional hídrica, mas também térmica (nomeadamente nos grupos das centrais a gás de ciclo combinado).

 

No futuro, que será já amanhã, a procura vai passar a ter um papel cada vez mais importante no equilíbrio entre procura e oferta, tendo que se ajustar também, pelo menos em parte, às variações da oferta. Tal significa que o consumidor vai passar a ter um papel central a gestão do sistema elétrico ajustando parte dos seus consumos à disponibilidade dos recursos primários renováveis. Tal será possível recorrendo a uma avançada infraestrutura de comunicações que disponibilize uma informação atempada sobre a previsível evolução da oferta, nomeadamente a que tem origem renovável, através por exemplo dos preços de eletricidade que serão comunicados aos contadores inteligentes, que por sua vez comunicam essa informação a sistemas de gestão dos consumos dos edifícios (HEMS – “Home Energy Management Systems” no jargão anglosaxónico). Estes sistemas deslocarão consumos de alguns eletrodomésticos como máquinas de lavar louça de lavar e ou secar roupa, bem como cargas com impacto térmico como aquecimento de águas sanitárias, ar condicionado e aquecimento ambiente. Simultaneamente estes sistemas de gestão de consumos poderão identificar a flexibilidade dos diferentes tipos de consumo nos edifícios para oferecer nos mercados de reserva, através de agentes agregadores, flexibilidade para reservas a subir ou a descer.

 

Esta abordagem será verdadeiramente “win win”, uma vez que ganharão os consumidores, vendo a sua fatura de eletricidade diminuir e ganhará o sistema, como um todo, por explorar a flexibilidade do consumo na procura do equilíbrio entre oferta e procura, permitindo inclusivamente aumentar o volume de integração de geração renovável, que assim não será desperdiçada e contribuirá globalmente para a redução de volume de emissões de CO2.

 

Esta solução de gestão ativa da procura será ainda utilizada para ajudar a resolver problemas de exploração da rede elétrica, quando nela forem detetadas situações de congestionamento de ramos. O envio por parte dos operadores de rede de sinais aos agentes agregadores, que comunicarão com os consumidores, para estes reduzirem temporariamente o consumo será também um recurso que será futuramente explorado no quadro de uma rede inteligente, onde os consumidores serão eles também inteligentes.

 

João Peças Lopes é administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos.

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