Peças Lopes: A Transição Energética e Digital nas Redes de Distribuição de Gás em Portugal

06.01.2021

As infraestruturas de distribuição de gás natural têm sido exploradas até agora apenas com injeções de gás proveniente exclusivamente das redes de transporte ou a partir de unidades autónomas de gás natural liquefeito, sendo caraterizadas por fluxos de gás unidirecionais de montante para jusante, apresentando reduzida capacidade de monitorização e automação, existindo desconhecimento sobre os consumos instantâneos de gás, nomeadamente nas áreas onde estão ligados pequenos consumidores, não permitindo assim aos operadores das redes de distribuição ter uma visão completa do cenário de exploração, em particular nas redes de baixa pressão.

 

Os próximos anos serão de forte mudança no setor gasista, em resultado de as redes de gás natural passarem a poder incorporar gases renováveis, tais como bio metano, proveniente de produtores em regime especial, e hidrogénio injetado localmente nas redes de distribuição de gás natural ou já incorporado no gás natural proveniente das redes de transporte. Este cenário de exploração passará a exigir a monitorização da qualidade de serviço, através da regular avaliação do poder calorífico superior dos gases fornecidos aos consumidores, conduzindo assim a ajustes com granularidade temporal adequada nos fatores de correção de volume que permitem calcular a energia fornecida aos consumidores para efeitos de faturação. Tal implicará que os operadores das redes de distribuição de gás tenham que dotar-se a curto prazo de meios de sensorização e de ferramentas de apoio à gestão destas redes que permitam obter uma imagem mais precisa dos fluxos de gás e das suas caraterísticas físicas e composição molecular, bem como da sua despachabilidade. Também a Regulação terá que agir rapidamente de forma a adaptar o Regulamento de Qualidade de Serviço a estas mudanças.

 

Este cenário de transição energética nas redes de gás tem grandes semelhanças com a alteração de paradigma de funcionamento das redes elétricas de distribuição, onde o cenário de partida foi muito semelhante ao das redes de distribuição de gás. Dado o interesse crescente em explorar fontes de produção de eletricidade de origem renovável, como a produção solar fotovoltaica, as redes de distribuição de eletricidade transformaram-se em redes ativas, recebendo grandes volumes de produção distribuída, com implicações nas condições de exploração, exigindo o aumento da monitorização, da supervisão e controlo destas redes. Assiste-se assim atualmente a uma revolução tecnológica ao nível das redes de distribuição de eletricidade, e em particular das redes de BT, com a adoção de novas estratégias e soluções de gestão assentes no aumento da capacidade de monitorização e na exploração crescente de grandes volumes de informação provenientes de vários agentes técnicos e comerciais.

 

O grande conhecimento e a experiência desenvolvidos com a mudança de paradigma da operação das redes elétricas podem agora facilmente e rapidamente ser transpostos para o setor gasista, acelerando a transição energética e digital nesta área. Com efeito existem vários conceitos, ferramentas e soluções do domínio da gestão das redes elétricas que podem ser facilmente transpostos para o setor gasista. A visão destas mudanças e das necessidades tecnológicas que elas implicam no setor das redes de gás conduzem simultaneamente à identificação de grandes oportunidades para o desenvolvimento de aplicações de hardware e software que muito podem aproveitar à indústria Portuguesa.

 

 

João Peças Lopes é diretor associado do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos.

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