Peças Lopes: Uma Agenda de I&D para a Política Energética de Portugal até 2030

05.11.2018

Face ao desafio da transição energética que resulta da necessidade de descarbonizar a sociedade e a economia de Portugal, importa fazer o exercício de definir os aspetos mais importantes de uma Agenda de I&D para a apoiar o desenvolvimento da política Energética do País até 2030. Este exercício passa por admitir que o Plano Nacional Energia e Clima 2030 tem que ser mais ambicioso nas suas metas, e há que pensar num valor alvo de 48% a 50% de energia com origem renovável para a satisfação do consumo final de toda a energia no ano de 2030.


A prossecução de um objetivo tão ambicioso como este implica eletrificar de forma mais extensa e intensa a sociedade e a economia Portuguesa. Tal exigirá trabalhar consequentemente em domínios como a Segurança de Abastecimento, a Formação de Preços da Eletricidade no Mercado Grossista, a Necessidade de recorrer a Serviços Avançados de Sistema e a Avaliação da Robustez de Exploração do Sistema Elétrico Nacional. Esta eletrificação exigirá nomeadamente uma maior promoção da Mobilidade Elétrica, o que implica avaliar impactos tecnológicos de soluções de carregamento rápido, V2G e V2H, avaliar alterações nos perfis de carga associados à mobilidade elétrica (promovendo as estratégias de carregamento inteligente com tarifas dinâmicas), avaliar o impacto do crescimento da mobilidade elétrica na formação de preços no Mercado Grossista Ibérico, desenvolver ferramentas para o planeamento e operação de sistemas elétricos com grande integração de sistemas de carregamento rápido e normais associados à disponibilidade de recursos energéticos renováveis, e o desenvolvimento de interfaces integrados de transporte, envolvendo plataformas de smart-sharing para os modos da mobilidade suave.


Para que esta transição ocorra com sucesso há que trabalhar aprofundadamente o tema da digitalização, sensorização e democratização da produção e consumo de energia elétrica, com a massificação da produção descentralizada e da microprodução, o que implica o desenvolvimento e consolidação dos conceitos de Smart Grids na rede elétrica portuguesa, trabalhando sobre os seguintes temas: Participação do consumidor final na gestão do Sistema Elétrico e na gestão técnica avançada das redes de BT e ainda o Desenvolvimento de plataformas de negociação local (pier2pier, block chain).


A concretização desta ambição vai requerer o redesenho da arquitetura do mercado Ibérico de Eletricidade, investigando temas como: o futuro do mercado marginalista, os mercados de serviços de sistema, a participação ativa dos consumidores nos mercados de balanço, a adoção de mercados de capacidade, o recurso a mercados de flexibilidade e serviços de sistema, com participação da produção renovável (o que implicará mais e melhor previsão), a avaliação da viabilidade e interesse da introdução de contratos por diferenças para remunerar as tecnologias renováveis, a avaliação do impacto do armazenamento de energia para arbitragem e fornecimento de serviços de Sistema e finalmente o impacto do Mercado de CO2.


Há ainda um trabalho significativo no domínio da transposição de Diretivas Comunitárias e seu impacto no seu SEE Português, e onde há que trabalhar em vários domínios, nomeadamente: novos modelos de negócio tais como comunidades locais de energia, a importância da resposta da procura, a Normalização a nível Nacional das tecnologias de gestão, e a monitorização e controlo das redes de distribuição, com especial foco na interoperabilidade entre sistemas.


Finalmente há que investigar e inovar sobre o tema das interligações. Há que perceber qual o valor técnico e económico para Portugal do desenvolvimento de uma Super Rede Europeia em HVDC e seu impacto (relativamente à segurança de abastecimento, à melhor e maior utilização do potencial das energias renováveis existentes em Portugal – em particular a solar fotovoltaica, e a identificação de soluções técnicas para interface com as redes de AC, acrescido do impacto na operação dos mercados). Há que avaliar o potencial do desenvolvimento de interligações intercontinentais via Atlântico e na bacia do Mediterrâneo, com uma dupla finalidade: a colheita de produção renovável offshore e o intercâmbio de grandes volumes de energia. A terminar há que trabalhar no desenvolvimento de sistemas integrados de despacho das Super Redes, em conjunto com os operadores de rede, envolvendo desenvolvimentos tecnológicos avançados no domínio dos conversores AC/DC e DC/AC.


Esta é sem dúvida uma agenda ambiciosa, mas para a qual o sistema científico e tecnológico português tem capacidade instalada para responder, apoiando assim a definição de uma política energética ambiciosa que contribuirá para gerar mais e melhor emprego e contribuir assim para o sucesso da economia Portuguesa na próxima década.

 

João Peças Lopes é diretor do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos.

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