Pedro Amaral Jorge (Energia-Renováveis): A recuperação económica com base na transição energética

18.05.2020

Não pode haver dúvida de que a transição energética será um dos dois pilares que mais pode contribuir para o relançamento e recuperação da economia nacional, depois de as previsões apontarem para uma recessão de 6% do PIB em 2020, de acordo com dados do Banco de Portugal.

 

Já muito se tem escrito sobre a importância de se planear a recuperação económica com base na transição energética. Num estudo muito recentemente realizado e publicado em abril passado pela SolarPower Europe em parceria com Universidade LUT (Finlândia), conclui-se que a descarbonização pode ser alcançada em 2040, aumentando a intensidade e densidade da transição energética verde!

 

Mas façamos uma pequena sinopse cronológica dos últimos 6 meses para nos ajudar a situar. A 11 de dezembro do ano passado, a Presidente da Comissão Europeia (CE) apresentou o European Green Deal (EGD).  A 4 de março de 2020, a CE enviou ao Parlamento Europeu uma proposta para a “Lei do Clima”, comprometendo-se a tornar a Europa o primeiro continente neutro em carbono, uma lei fundamental para a sustentabilidade socioeconómica, financeira e ambiental da União Europeia e do continente Europeu.

 

A VISÃO DA COMISSÃO EUROPEIA É CRUCIAL NUM MOMENTO EM QUE AINDA IMPERA A VISÃO DO ATUAL MODELO TRADICIONAL ALICERÇADO NUMA TRAJETÓRIA DE INSUSTENTABILIDADE

 

A visão da Comissão Europeia plasmada nestes dois documentos é absolutamente crucial num momento em que ainda impera a visão do atual modelo tradicional de crescimento e desenvolvimento económico e industrial alicerçado numa trajetória de insustentabilidade, quer pelo contínuo exaurir dos recursos naturais, quer pelo colapso dos nossos ecossistemas, comprovadamente resultantes dos níveis de aquecimento global alcançados. E a somar a este cenário, já de si dantesco, surge uma crise sanitária e de saúde pública sem precedentes com a  previsão de impacto socioeconómico que já se conhece. Tudo isto nos deve levar a questionar e refletir genericamente sobre os nossos atuais modelos de produção e consumo, e especificamente transitar para um modelo mais sustentável, tendo em consideração toda a cadeia da geração, armazenamento, transmissão, distribuição e comercialização de energia, especialmente centrado na geração de eletricidade renovável.

 

A reforçar a lei do clima e o EGD, soma-se o “Roadmap for Recovery - Towards a more resilient, sustainable and fair Europe” apresentado pelo Conselho Europeu em 21 de abril, onde se definem inequivocamente quais as duas áreas prioritárias para a recuperação económica - a transição verde e a transformação digital. Estas desempenharão o papel central e prioritário no relançamento e modernização das economias da União Europeia (UE). Investir em tecnologias e capacidades energéticas limpas e digitais, juntamente com uma economia circular, ajudará a criar empregos e crescimento e permitirá à Europa tirar o maior partido em termos globais do pioneirismo (first-mover advantage) na corrida global em direção à recuperação.

 

A acrescer a todos estes sinais e incentivos em direção à descarbonização, com a contribuição absolutamente fundamental das energias renováveis, no passado dia 6 de maio a Comissão abriu uma consulta pública que durará quatro semanas e pretende obter feedback sobre projetos de regras para estabelecer um novo mecanismo de financiamento da eu, para apoiar projetos de energia renovável.

 

Voltando ao estudo que referi no início, este conclui que é possível que a UE se torne totalmente neutra em termos de impacto climático até 2040, cumprindo a ambiciosa meta do Acordo de Paris de 1,5 ° C e sem “truques”, como sumidouros de carbono. Outro resultado alcançado é o da transição energética ter ótimo custo-benefício quando comparada com o cenário de 2050.

 

Refere o estudo que alcançar uma Europa 100% renovável requer uma alta taxa de eletrificação dos consumos, de cerca de 85%, com impactos positivos na integração setorial, resultando em ganhos significativos de eficiência para o sistema energético. Também abre caminho para o hidrogénio verde renovável poder contribuir significativamente, a partir de 2030, para a descarbonização total dos setores do aquecimento e arrefecimento  e dos transportes, tendo este último o caminho mais longo para chegar a 100% de energias renováveis, dos 8% atuais. Essa transformação depende de baterias, cruciais para eletrificar veículos, e ainda mais de hidrogénio, mas, neste caso, como base para combustíveis sintéticos com excelente papel a desempenhar no grande campo de aplicação marítima e da aviação.

 

PORTUGAL TEM NA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA UMA FERRAMENTA PARA A RECUPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA ECONOMIA NACIONAL

A somar a estas conclusões, o estudo estima o potencial ibérico renovável em 3153 TWh/ano e conclui que este é o mais elevado da Europa (consultar "Gráfico APREN" ao fundo da página).

 

Portugal tem na transição energética uma ferramenta para estrategicamente posicionar a recuperação, crescimento e desenvolvimento da economia nacional. Recordo que um estudo realizado pela Deloitte em parceria com a APREN, em setembro de 2019, conclui que a implementação do PNEC 2030 com as metas atuais, conduziria a significativos ganhos em termos de contribuição para o PIB, geração de emprego, receitas fiscais e significativa redução de emissões de carbono. O hidrogénio verde, obtido por eletrolise da água com recurso a eletricidade de fonte renovável, irá requerer a instalação de mais potência/capacidade renovável, que soma à já definida no PNEC o que permitirá captar mais investimento com o consequente benefício socioeconómico e ambiental.

 

Pedro Amaral Jorge formou-se em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, e possui ainda um EMBA com vertente de Finanças e Operações, pelo IESE/AESE. Na sua anterior experiência profissional, desempenhou funções de especialista em estruturação e financiamento de projetos na vertente de investimento do setor privado para o African Development Bank (AfDB), nas áreas de Infraestruturas, Energia e Água e Saneamento em África, com foco na região subsaariana. A juntar ao seu percurso, Pedro Amaral Jorge possui ainda um histórico de desenvolvimento de projetos de concessões de serviços de utilidade pública e de BOT (Build Operate and Transfer) bem como financiamento, planeamento, construção e gestão, acumulando mais de 15 anos de experiência internacional, tendo trabalhado e vivido em diferentes mercados, em especial na Europa, América do Sul, África e Médio Oriente. Conta com um total de 20 anos de experiência profissional em posições de gestão de topo, assumindo funções como Diretor de Unidade de Negócio, Membro de Comissão Executiva, Administrador Executivo e CEO em empresas como a Mitsubishi/METITO Utilities, Indaqua / Grupo Mota-Engil, SACYR/SOMAGUE e IDOM. Na APREN desde dezembro de 2018, assumindo na altura o cargo de Vice-Presidente, Pedro Amaral Jorge iniciou em março de 2019 as funções de Presidente e porta-voz da Associação.

Pode ainda consultar: Gráfico APREN
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