Rui Berkemeier: Alguém explique ao Ministro do Ambiente quais os resíduos urbanos que vão para aterro

04.10.2017

Nos últimos tempos temos sido confrontados com a divulgação por parte do Ministério do Ambiente, muitas vezes pelo próprio Ministro, de dados que apontam para o envio para aterro de cerca de 30% dos resíduos urbanos.

 

A mais recente divulgação de dados relativa ao destino destes resíduos, é aquela que consta do Plano de Ação para a Economia Circular que esteve em consulta pública até ao passado dia 30 de Setembro e que indicava que em 2014 Portugal enviou para aterro 34% dos seus resíduos urbanos.

 

Mas esse documento também diz que Portugal reciclou nesse ano 30% dos seus resíduos urbanos, o que juntando com os 20% que vão para incineração resulta numa percentagem de 84%, pelo que se impõe perguntar: e onde estão os outros 16% que faltam?

 

A resposta, porém, é bastante fácil: estão nos resíduos que vão para aterro resultantes da atividade dos TMB, dos TM, da triagem de recicláveis e dos incineradores.

 

Ou seja, o Ministério do Ambiente continua a insistir em apenas contabilizar como enviados para aterro aqueles resíduos que aí são colocados diretamente, omitindo o destino dos resíduos que também vão para aterro, embora após passagem por um pré-tratamento.

 

Por outras palavras, em 2014 Portugal enviou para aterro pelo menos 50% dos seus resíduos urbanos e não 34% como o Ministério do Ambiente continua a tentar convencer os portugueses.

 

De referir que mesmo este valor de 50% está seguramente sub-avaliado, uma vez que é altamente questionável que Portugal tenha conseguido reciclar 30% dos seus resíduos urbanos. Mas isso é um tema para o qual não há espaço neste artigo.

 

Por tudo isto aqui vai o apelo para o Sr. Ministro do Ambiente no sentido de corrigir os dados que tem divulgado sobre este assunto. É que não será seguramente por repetirmos ciclicamente que os resíduos não vão para aterro que eles deixam de lá chegar.

 

Aliás, o não reconhecimento dos problemas que existem na realidade é meio caminho andado para não os resolvermos, e assim, um dos grandes desafios que temos pela frente que é a reciclagem dos resíduos urbanos nunca mais é enfrentado a sério de vez.

 

Provocação do mês: Depois de ficarmos a saber que cerca de 3 em cada 4 equipamentos de refrigeração não aparece nas unidades de tratamento licenciadas para o efeito, com todos os problemas inerentes de libertação para a atmosfera de gases destruidores da camada de ozono e de efeito de estufa, surgiu agora a informação de que os resíduos dos pequenos equipamentos elétricos e eletrónicos estão a ser encaminhados para tratamento em unidades de fragmentação de automóveis e de sucata metálica, sendo difícil de perceber como é que essas unidades têm condições para proceder à descontaminação desses resíduos antes da fragmentação e como poderão recuperar os diferentes tipos de plástico após esse processo. 

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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