Sá da Costa (Energia): 2017 um ano em que a seca implicou aumento da eletricidade de origem fóssil

15.01.2018

Como tem sido meu hábito aproveito a primeira crónica do ano para fazer o balanço de eletricidade renovável do ano anterior, salientando ainda os factos mais importantes que tiveram lugar durante 2017.

 

Em primeiro lugar tenho de referir-me à questão das alterações climáticas que o nosso País, segundo os especialistas, vai sofrer mais do que nenhum na Europa, sendo os efeitos da desertificação a maior consequência. O combate, ou mitigação, destas consequências necessita de planeamento a médio e a longo prazo e não se compadece com medidas avulso e desarticuladas.

 

Portugal assinou o acordo de Paris que prevê a progressiva descarbonização da economia. O nosso Primeiro Ministro pretende que Portugal seja neutro de carbono em 2050, objetivo que suporto inteiramente, mas não nos podemos esquecer que 2050 é daqui a 32 anos. Ora 32 anos é menos de metade do que eu vivi e é também menos da idade dos meus filhos mais novos, por outras palavras, é já amanhã! Temos de por já mãos à obra e, na minha opinião, já vamos atrasados.

 

Portugal emitiu em 2016, segundo a APA – Agência Portuguesa do Ambiente 68 Mega toneladas (Mt) de CO2 das quais as nossas florestas absorveram 8 Mt, por outras palavras, temos de eliminar até 2050 o excesso de 60 Mt CO2 se queremos ser neutros de carbono. Em termos médios dos últimos anos o setor da eletricidade tem emitido 14.6 Mt de CO2 , o que quer dizer que mesmo que toda a eletricidade seja renovável ainda ficam a faltar reduzir 45.4 Mt de CO2 nos outros setores da economia.

 

Com isto, deve ficar claro que o setor da economia que vai mais à frente nesta redução é o da eletricidade, que é também aquele em que é mais custo eficaz proceder a essa redução.

 

Outro facto de 2017 a assinalar é o de que como foi um ano seco reduziu-se muito a contribuição da hidroeletricidade, comparativamente a 2016 que tinha sido um ano muito húmido, e isso refletiu-se na redução da percentagem de eletricidade renovável que, desta vez, ficou abaixo de metade.

 

Esta primeira crónica de 2018 não fica completa sem referir os dados relativos à produção de eletricidade do ano passado. Em 2017 a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis em Portugal foi responsável por 44 % do total produzido no continente, sendo os restantes 56 % de origem fóssil.

 

Também se deve salientar que este ano o balanço com Espanha se traduziu num saldo exportador de 2,7 TWh, ou seja, cerca de 5 % do consumo. Recordo que em 2016 tínhamos exportado cerca do dobro daquele valor.

 

Se analisarmos a forma como o consumo nacional de eletricidade foi satisfeito no ano passado verifica-se que a produção das centrais renováveis atingiu 23 TWh. A eletricidade de origem eólica representa o mais elevado com 23.1% do consumo em Portugal Continental. A hidroeletricidade representou 14.2% daquele consumo, seguida da biomassa com 5,4 % da produção nacional. A solar fotovoltaica teve uma contribuição de apenas 1,6 % no mix nacional, o que ainda é baixo face ao potencial nacional.

 

De salientar que o ano de 2017 foi o ano que menos potência em novas centrais renováveis foi instalada o que denota a necessidade de rever a política atual, o que terá de ser feito muito rapidamente sob pena de pormos em risco os compromissos assumidos pelo País para 2020.

 

Votos de um 2018 cheio que energia renovável, pois…


Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.


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