Colunista José Pedro Matos (Água-Tecnologia): Uma revolução em curso no abastecimento de água

26.04.2016

Na Índia cerca de 330 milhões de pessoas estão a ser atingidas pela seca, numa situação que se arrasta há vários meses e continua a agravar-se. Em paralelo, em parte devido a um dos El-Niños mais fortes de que há registo, vários países na África Oriental e na África Austral enfrentam uma das piores secas das últimas décadas, sendo que se estima que 36 milhões de pessoas possam ser atingidas pela fome na região.

 

Na Etiópia, o país mais afetado, temperaturas elevadas e precipitações reduzidas levaram à perda de, aproximadamente, 80% das culturas. Partes de Angola e Moçambique estão também a ser tocadas e, a montante na bacia do Rio Zambeze, níveis invulgarmente baixos no lago Kariba (o maior reservatório artificial do mundo em termos de volume) levam já ao racionamento de energia elétrica na região durante o que deveria ser o pico da época das chuvas.

 

Enquanto lia sobre as situações desesperadas na Índia e em África recordei-me de uma apresentação a que assisti recentemente (The fourth urban water revolution comes to the American West, http://goo.gl/E0TJ5o). Nesta apresentação o Professor David Sedlak (UC Berkley) falava de uma 4ª revolução no saneamento urbano e defendia uma ideia interessante: este tipo de revolução não se dá na sequência do desenvolvimento de uma nova tecnologia, mas porque circunstâncias extremas levam os decisores políticos a implementar tecnologias já existentes.

 

A Califórnia tem vindo a debater-se com uma seca grave nos últimos anos. Aliando capacidades técnicas com vontade política, é um campo de teste ímpar para novas formas de lidar com situações de seca. Os progressos que por lá se têm verificado baseiam-se em quatro pilares: a reutilização, a captação de águas pluviais, a utilização eficiente do recurso e a dessalinização.

 

Uma solução porventura interessante em regiões com capacidades económicas limitadas é a captação de águas pluviais tendo em conta, no entanto, um pormenor interessante: empreendimentos que visam a captação em grande escala podem ser ordens de magnitude mais eficientes que soluções distribuídas (e.g., captações residenciais).

 

Constituindo outra alternativa, a tecnologia de dessalinização tem vindo continuamente a tornar-se mais acessível, chegando hoje ao ponto de competir com alguns sistemas de bombagem. Futuros melhoramentos na eficiência do processo de dessalinização podem bem vir a mudar as fontes preferenciais de água para abastecimento urbano e, em grande medida, resolver problemas de escassez.

 

O sucesso da implementação destas tecnologias e conceitos podem levar a uma verdadeira mudança de paradigma na gestão dos recursos hídricos. Claro que nem todas estratégias adotadas na Califórnia e em outros países desenvolvidos serão diretamente aplicáveis aos países em vias de desenvolvimento que, frequentemente, são dos mais afetados pela seca.

 

No entanto, algumas das experiências que têm sido conduzidas e, principalmente, as lições que delas têm resultado, podem e devem ter um impacto na forma como, no futuro, economias e sociedades se preparam para resistir à falta de água. O desafio é saber como, para além de adotar uma atitude reativa, se podem implementar as estratégias mais adequadas de preparação a médio e longo prazo.

 

José Pedro Saldanha Matos licenciou-se em Engenharia Civil pelo IST (Instituto Superior Técnico) em 2008, tendo iniciado actividade profissional e de investigação na área do saneamento. No âmbito do doutoramento, desenvolvido no IST e na EPFL (Instituto Federal de Tecnologia Suíço em Lausanne) e concluído em 2014, a sua investigação passou a abranger também a hidrologia. Hoje exerce actividade na EPFL, onde estuda a quantificação de riscos, modelação de incerteza e a modelação sistemas de distribuição de água. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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