Carlos Zorrinho: Europa Verde, mas QB

22.09.2020

Segundo um relatório recentemente publicado pela Agência Europeia do Ambiente, a poluição atmosférica é "o principal fator ambiental ligado ao aparecimento de doenças, que são responsáveis por cerca de 400 mil mortes prematuras atribuídas à poluição atmosférica, anualmente na União Europeia (UE)". Isto significa que uma em cada 8 mortes na UE é acelerada pela poluição atmosférica, que não sendo um vírus, exceto em sentido metafórico, é também um agente insidioso e invisível que contribui significativamente para a morbilidade e para a mortalidade em todo o mundo e também na União.

 

Também no impacto sanitário da poluição, a forma como somos expostos não é igualitária. São também as comunidades mais vulneráveis e mais pobres as que são mais afetadas.

 

O relatório indicia também uma eventual conexão direta entre a exposição a longo prazo à poluição do ar e o aumento da suscetibilidade à covid-19. Parece uma conexão evidente no plano empírico, mas que aguarda a validação científica.

"(...) afirmação da UE como potência multilateral no quadro duma globalização em mudança implica que a transição energética e a descarbonização, tal como a transição digital e a digitalização, acelerem de forma coordenada e focada (...)"

 

A pandemia exige da UE a capacidade de responder, recuperar e transformar. Alguns tentam aproveitar esta necessidade de transformação para pôr em causa os objetivos e a prioridade do Pacto Ecológico Europeu. Ajustamentos podem ser necessários, mas o rumo tem que ser mantido.  Foi esse também o sentido da intervenção da Presidente da Comissão Europeia no debate do Estado da União, dia 16 de setembro no plenário do Parlamento Europeu, excecionalmente realizado em Bruxelas, assumindo compromissos financeiros (30% do pacote financeiro de nova geração) metas (pelo menos 55% de redução das emissões até 2030) e prioridades como a mobilidade elétrica e o hidrogénio verde.

 

A afirmação da UE como potência multilateral no quadro duma globalização em mudança implica que a transição energética e a descarbonização, tal como a transição digital e a digitalização, acelerem de forma coordenada e focada numa visão centrada nas pessoas e na redução das desigualdades de acesso às tecnologias e aos serviços.

 

António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), comparou recentemente o esforço de concertação que é necessário para combater com sucesso as alterações climáticas, à coordenação fundamental para vencer a pandemia.

 

Em ambos os processos há ainda muito caminho a percorrer. A União Europeia podia ser mais assertiva, mas começa agora a retomar o sentido certo, depois do solavanco provocado pela pandemia. É um QB que augura uma melhor prestação no futuro. 

 

Cuidar do nosso planeta não permite apenas salvar ecossistemas, mas também melhorar e salvar milhões vidas, reduzindo a poluição e criando ambientes mais saudáveis. Está tudo ligado.

 

 

Carlos Zorrinho, 61 anos, é casado e tem dois filhos. Doutorado em Gestão da Informação é Professor Catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora. Exerceu várias funções académicas e governativas e foi Deputado à Assembleia da República na VII, VIII, IX, XI e XII Legislaturas. É Deputado no Parlamento Europeu, Presidente da Delegação do PS, membro das comissões de Indústria, Investigação e Energia e de Desenvolvimento e Presidente da Delegação ACP (África, Caraíbas e Pacífico).

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