Helena Leitão de Barros (Angola): Aproveitamento de águas pluviais, uma oportunidade para Angola

26.05.2020

Angola é um país muito rico em recursos hídricos e muito diversificado em termos climáticos.

 

A distribuição da precipitação média anual varia no território angolano apresentando valores mais elevados no Nordeste do país de cerca de 1600 mm e na região sul na zona costeira os valores mais baixos que não excedem os 400 mm.

 

Distinguem-se em Angola duas estações climáticas, entre Junho e fins de Setembro a estação seca e fresca, conhecida por cacimbo e entre Outubro e fins de Maio, a estação das chuvas, em que ocorrem as temperaturas mais elevadas.

 

Não existem séries de dados actualizados sobre a precipitação nas várias províncias, mas as intensas precipitações que se fazem sentir anualmente são notícia, pois provocam inundações e o desalojamento de populações e frequentemente conduzem a mortes.

A PRECIPITAÇÃO É UM RECURSO QUE TEM SIDO ESQUECIDO COMO COMPLEMENTO ÀS REDES DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA POTÁVEL

A precipitação alimenta as linhas de água, permanentes e temporárias, seguindo o ciclo hidrológico, sem qualquer aproveitamento significativo pelas populações.

 

A precipitação é um recurso que tem sido esquecido como complemento às redes de abastecimento de água potável. O aproveitamento das águas pluviais pode constituir uma opção interessante a vários níveis em Angola: permite reduzir as escorrências pluviais em áreas urbanizadas (em Angola é comum a rede de drenagem pluvial não existir ou apresentar deficiências de manutenção), permite também uma redução do consumo de água da rede de abastecimento, em particular em áreas com menor disponibilidade de água, e possibilita o uso da água pluvial para utilizações não potáveis.

 

A escorrência de águas pluviais nas cidades angolanas faz-se muitas vezes, através de valas a céu aberto que funcionam também como depósito de resíduos sólidos. Quando chove com intensidade, os resíduos por vezes acumulam-se e impedem a escorrências das águas, originando inundações.

 

A cidades que possuem sistemas de abastecimento de água, com o reaproveitamento das águas pluviais poderão verificar uma redução do consumo de água potável e uma melhor gestão deste recurso para as suas utilizações.

O APROVEITAMENTO DE ÁGUAS PLUVIAIS PERMITIRÁ POUPAR A ÁGUA POTÁVEL PARA OUTROS USOS MAIS EXIGENTES

Entre as utilizações não potáveis, no caso de Angola, podem enumerar-se, entre outras as as seguintes: lavagem de viaturas (esta actividade apesar de proibida na via pública, é o sustento de muitas pessoas, dado que as viaturas acumulam quantidades significativas de poeiras, nomeadamente dadas as inúmeras vias que não são asfaltadas; lavagem de pavimentos e da via pública; limpeza de contentores de resíduos sólidos; rega de espaços verdes ( manutenção de jardins e espaços verdes, poderá ter de ser realizada em determinadas zonas do país, onde a chuva não é frequente) e limpeza de sistemas de climatização (outra actividade que requer cuidados adicionais de manutenção, devido às poeiras existentes no ar).

 

Assim, o uso eficiente da água, com recurso ao aproveitamento de águas pluviais, permitirá poupar a água potável para outros usos, mais exigentes em termos de qualidade da água.

 

Tanto em áreas urbanas como rurais o aproveitamento de águas pluviais poderá constituir uma riqueza a explorar e a gerir eficientemente, contribuindo para a resiliência aos efeitos das alterações climáticas em Angola, com benefícios para todos e para o ambiente.


Helena Leitão de Barros, consultora  ambiental e social com larga experiência em Portugal, Angola e Cabo Verde, trabalhou em várias empresas portuguesas, angolanas e multinacionais, em especial nas áreas de avaliação de impactes ambientais e gestão ambiental. Em Angola foi Team Leader  Resident  para a componente Ambiental e Social do Programa Multisectorial de Emergência e Reabilitação, coordenado pelo Ministério do Planeamento e financiado pelo Banco Mundial (2007-2011). Em Cabo Verde trabalhou como Especialista de Campanha Ambiental e Social (Internacional) (2015- 2016)  no Projecto de Desenvolvimento do Abastecimento de Água na Ilha de Santiago, financiado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão. É Mestre em Transportes, pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa e licenciada em Planeamento Regional e Urbano, pela Universidade de Aveiro. Foi docente do ensino superior em Portugal na Escola Náutica Infante D. Henrique (2001 a 2007) e em Angola na Universidade Independente de Angola (2009-2013).

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