Opinião Helena Leitão de Barros (Angola): Novo rumo para os plásticos

25.06.2019

Em todo o mundo assiste-se a uma preocupação com os resíduos marinhos em geral e especialmente com os plásticos nos oceanos. Em Angola, essa preocupação tem sido também manifestada, mas não estando ainda implementada a recolha selectiva de resíduos, nem existindo aterros sanitários em todas as províncias, com quantificação dos resíduos produzidos, os desafios são ainda maiores.


O aumento da população mundial conduziu a um aumento do consumo de produtos, na compra de qualquer produto de pequena dimensão, seja ele de tipo for, vem quase sempre acompanhado de uma embalagem ou saco de plástico para transporte ou acondicionamento do produto, sem que tenhamos consciência disso. Os plásticos  têm uma vida útil muito curta, pois maioritariamente são  utilizados só uma vez, seguindo a cultura do “usa e deita fora” e lançados no ambiente levam dezenas de anos a degradar-se.

Em Angola é comum observarem-se resíduos mais leves como os sacos de plásticos, em qualquer lugar, pois foram arrastados pelo vento. Nas cidades costeiras angolanas esta situação é agravada, pelo facto de ser comum assistir-se à deposição pela população de resíduos sólidos nas valas de drenagem, construídas para conduzir as águas pluviais.

 

Na estação das chuvas estes resíduos são arrastados para o mar, colocando em risco o ecossistema marinho, provocando a destruição de habitats naturais. Podem ainda provocar a morte dos animais através de asfixia, ou entrar na cadeia alimentar quando são reduzidos a microplásticos.

 

Os plásticos podem também constituir perigo para a segurança na navegação se ficarem presos na hélice das embarcações. Por outro lado, a deposição de plásticos nas zonas costeiras diminui a sua qualidade visual, dissuadindo os visitantes e turistas e compromete o futuro das actividades económicas ligadas ao mar, como a pesca, aquicultura e o recreio náutico.

 

A deposição deliberada de plásticos no ambiente tem de terminar, torna-se urgente a consciencialização da população. Em todo o mundo os plásticos nas praias constituem cerca de 85% dos resíduos depositados A limpeza das praias e áreas costeiras, bem como a venda de sacos de plástico, ou a aplicação de uma taxa na venda de produtos de plásticos são apenas algumas das muitas medidas paliativas para mitigar este problema de grandes dimensões que afecta todo o planeta.

 

Em Angola, este é o momento oportuno para que os plásticos, sejam tido em consideração na gestão de resíduos sólidos. Seria importante delinear desde já uma estratégia, para que se implemente a recolha selectiva e os plásticos sejam reciclados localmente.

 

Os esforços em campanhas de sensibilização que se têm feito, no sentido de responsabilizar as comunidades para a limpeza do seu assentamento, bairro e cidade, podem dar um destaque especial aos plásticos. Estas campanhas podem divulgar por exemplo as alternativas aos sacos plásticos, como o saco de plástico de múltipla utilização e de materiais reutilizáveis e orgânicos e incrementar a disponibilização destas alternativas.

 

Deverá apostar-se na investigação e inovação criando materiais plásticos mais fáceis de reciclar, processos de reciclagem mais eficientes e maior controlo dos contaminantes dos plásticos reciclados.

 

Podem ainda estabelecer-se regras para aumentar a procura de plásticos reciclados pelos industriais, o que dinamiza a actividade de reciclagem de plástico e diminui o volume de plástico nas lixeiras e aterros sanitários.

 

Muitos são os desafios que o novo rumo para os plásticos enfrenta, em Angola, devendo começar pela sensibilização e consciencialização de que estamos todos juntos no mesmo barco e todos devemos remar na mesma direcção para a redução dos plásticos no nosso Planeta.

 

Helena Leitão de Barros, consultora  ambiental e social com larga experiência em Portugal, Angola e Cabo Verde, trabalhou em várias empresas portuguesas, angolanas e multinacionais, em especial nas áreas de avaliação de impactes ambientais e gestão ambiental. Em Angola foi Team Leader  Resident  para a componente Ambiental e Social do Programa Multisectorial de Emergência e Reabilitação, coordenado pelo Ministério do Planeamento e financiado pelo Banco Mundial (2007-2011). Em Cabo Verde trabalhou como Especialista de Campanha Ambiental e Social (Internacional) (2015- 2016)  no Projecto de Desenvolvimento do Abastecimento de Água na Ilha de Santiago, financiado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão. É Mestre em Transportes, pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa e licenciada em Planeamento Regional e Urbano, pela Universidade de Aveiro. Foi docente do ensino superior em Portugal na Escola Náutica Infante D. Henrique (2001 a 2007) e em Angola na Universidade Independente de Angola (2009-2013).

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