O novo contexto geopolítico internacional

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Manuel Costeira da Rocha
Francisco Ferreira
Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
Mário Paulo
Presidente do Conselho Consultivo da ERSE
Paulo Preto dos Santos
Vice-coordenador da Comissão de Energia da Ordem dos Engenheiros
Jaime Braga
Assessor da Direção da CIP
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Pode o atual contexto geopolítico mundial travar a transição energética encetada pela União Europeia?

Manuel Costeira da Rocha
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Não creio que trave, implicará ajustar o foco e o ritmo. A questão dos materiais críticos e do armazenamento de energia (numa ótica não só técnica mas, principalmente, estratégica) deverá assumir maior relevância no futuro. Tendo limitações ao nível do acesso às matérias-primas críticas, e tendo dificuldades de produção em escala, a Europa terá de acelerar o passo nestes aspetos, mas principalmente em termos de inovação.

Francisco Ferreira
Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
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Não é tanto o contexto geopolítico mundial, mas mais as prioridades governamentais de um conjunto de governos na União Europeia e de um Parlamento Europeu que tem uma representação de forças partidárias desalinhadas dos objetivos traçados no Pacto Ecológico Europeu, incluindo das metas ambiciosas de mitigação climática e de energias renováveis.

Mário Paulo
Presidente do Conselho Consultivo da ERSE
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A transição energética é inevitável; eventualmente, a sua velocidade poderá diminuir. Sem grandes recursos fósseis, a UE deve continuar com as políticas que tem defendido. Convém referir que 24 estados dos EUA pretendem continuar com o seu objetivo de atingir um saldo nulo de emissões de CO2 em 2050. São maioritariamente democratas, mas um destes estados é o Texas, que votou maioritariamente em Trump. Os empregos diretos gerados pelas renováveis nesses estados somam cerca de 230 mil, e no Texas cerca de 23 mil.

A guerra de tarifas anunciada por Trump, na data em que escrevo, irá reduzir o comércio mundial e parece ser consensual uma recessão nos EUA. Apesar deste esfriar do crescimento, as emissões poderão continuar a aumentar.

Paulo Preto dos Santos
Vice-coordenador da Comissão de Energia da Ordem dos Engenheiros
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A União Europeia já declarou manter o compromisso com o Pacto Ecológico Europeu e com os investimentos em fontes energéticas renováveis. A guerra na Ucrânia acelerou a busca da UE por independência energética, tornando improvável um retrocesso. A diversificação das fontes energéticas e investimentos em tecnologias de armazenamento podem manter o ritmo da transição. O atual contexto pode dificultar o financiamento e encarecer projetos de energia limpa, mas a necessidade de segurança energética manterá o desenvolvimento das renováveis no longo prazo e está a fazer renascer a energia nuclear.

Jaime Braga
Assessor da Direção da CIP
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No meu entender, pode, o que é globalmente prejudicial.

No entanto, o ritmo da transição energética na Europa (e em Portugal) terá de ser “temperado” pelas condições atuais (que são adversas).

Dois exemplos:

  • A opção pela eletrificação não deverá incluir, ou sequer estimular, a expansão de tecnologias atualmente caras; melhor será moderar o ritmo desta opção.
  • O hidrogénio tem custos muito elevados. No entanto, sendo essencial, o seu ritmo deverá ser cauteloso.
  • Biometano é economia circular e, por esse motivo, deve ser estimulado, tanto mais que a sua tecnologia é madura.
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Que perspetivas traça para o setor da energia a nível mundial e que tendências deverão marcar os próximos tempos?

Manuel Costeira da Rocha
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As mudanças no setor da energia demoram décadas até terem expressão e relevo. Por isso, infelizmente, durante mais alguns anos continuaremos a conviver com combustíveis fósseis. Ainda assim, estamos claramente a passar de um paradigma centrado em combustíveis fósseis para outro centrado nos materiais fundamentais à transição energética, onde conceitos como cadeia de valor e circularidade assumem protagonismo. Por outro lado, a necessidade de descarbonização em países populosos, como a China e a Índia, é assumidamente uma prioridade dos seus governos, levando a que nessas geografias se acelere a transição energética e se assista a uma industrialização acelerada para a produção em escala de equipamentos, tais como veículos elétricos, baterias e eletrolizadores.

Francisco Ferreira
Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
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De acordo com a trajetória de neutralidade climática para 2050 presente no Acordo de Paris para impedir uma temperatura constantemente superior a 1,5 graus acima do nível pré-industrial, precisamos de inverter o aumento da queima de combustíveis fósseis em 2025. Infelizmente, em termos de países, a começar pelos Estados Unidos, mas também de uma forma generalizada em vários setores, a tendência não é esta.

Mário Paulo
Presidente do Conselho Consultivo da ERSE
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A mais notória é a tentativa de regresso dos EUA a uma reindustrialização baseada nas indústrias pesadas do aço, alumínio, automóvel e suas componentes, alimentada pelos fósseis, sob o lema “drill baby drill”. Se esta política tiver êxito, o que duvido, teremos um aumento de emissões de CO2 nesses setores.

Os países interessados na continuação num comércio livre e global - China, UE, Inglaterra, Japão, Canadá, Índia e outros - continuarão na senda da descarbonização das suas indústrias e na transição energética.

É também uma grande oportunidade para a UE se assumir como porto de abrigo para este tsunami e liderar esta luta contra o regresso ao passado.

Paulo Preto dos santos
Diretor-geral da Dourogás Renovável
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O setor energético vai assistir ao reforço dos combustíveis fósseis nos EUA, tendo Trump já demonstrado total apoio à indústria do petróleo, gás e carvão, influenciando os respetivos preços, enquanto a União Europeia e a China já anunciaram que continuarão a investir em renováveis. Iremos também assistir ao crescimento do GNL (Gás Natural Liquefeito) com os EUA a ganharem ainda mais relevância. A maior volatilidade dos preços da eletricidade reforçará a importância do armazenamento com baterias (e, quiçá, o hidrogénio verde) como soluções para estabilidade energética. Os conflitos no Médio-Oriente, as sanções à Rússia e a relação EUA-China continuarão a pressionar os preços da energia.

Jaime Braga
Assessor da Direção da CIP
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No curto prazo, teremos um planeta assimétrico marcado por ritmos muito diferentes no setor da energia:

  • Alguns países têm vastos recursos energéticos, e continuarão a aproveitá-los.

Como resultado, os custos energéticos poderão ser substancialmente mais reduzidos nesses países (os níveis de emissões serão o que daí decorrer…).

  • Como defesa, os países desenvolvidos, mas sem recursos energéticos significativos, pagarão a energia mais cara, apenas com a contrapartida de serem menos dependentes nesse campo.
  • Salvo convulsão mundial, os mercados terão períodos de estabilidade, mas não a preços baixos.
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Em face da imprevisibilidade e volatilidade do contexto geopolítico internacional, que medidas podem ser tomadas para acautelar a minimização dos potenciais impactos nos custos energéticos das empresas?

Manuel Costeira da Rocha
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A procura de energia por empresas normalmente é inelástica, deixando-as muito expostas a fatores exógenos. É sempre bom ter presente a necessidade de se procurar a eficiência económica (produzir o máximo de valor com o mínimo de recursos) além da eficiência energética (utilizar as técnicas e metodologias mais eficientes na utilização de energia). Sendo possível, devem ser explorados os recursos endógenos eventualmente disponíveis localmente, nomeadamente solar e eólico, bem assim como o reaproveitamento de energia térmica resultante dos processos. O recurso a instrumentos tipo PPA e coberturas pode ajudar a mitigar riscos. Nunca esquecer que a energia mais barata é a que não se consome!

Francisco Ferreira
Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
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À escala nacional, todas as medidas que reduzam a nossa dependência de combustíveis fósseis e apostem nas renováveis fazem parte do caminho a seguir, em linha com o que está previsto em termos de ambição presente em diversos planos. Aumentar muito a eletrificação e resolver a questão do armazenamento estão entre os pontos mais relevantes.

Mário Paulo
Presidente do Conselho Consultivo da ERSE
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O investimento em eficiência energética é fundamental. As políticas europeias têm colocado este investimento em primeiro lugar, porém serão necessárias políticas públicas que as incentivem.

Sempre que possível, o recurso ao autoconsumo deverá continuar, assim como a desburocratização destes licenciamentos.

O desenvolvimento de novos vetores, como o biometano e o biogás, deve ser impulsionado, conjugado com incentivos à produção agrícola, promovendo a independência alimentar, visando criar sinergias profícuas entre estes setores produtivos.

Será também essencial a diversificação das importações de combustíveis fósseis que ainda necessitamos.

Paulo Preto dos Santos
Vice-coordenador da Comissão de Energia da Ordem dos Engenheiros
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A eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA introduziu imprevisibilidade no contexto geopolítico internacional, especialmente no setor energético. Para minimizar os potenciais impactos nos custos energéticos, as empresas devem diminuir a dependência de um único fornecedor ou de uma única forma energética, garantindo redundância nas fontes de energia, podem diminuir a volatilidade dos preços através de contratos de longo prazo e de futuros ou estratégias de hedging no mercado energético. Além disso, podem ainda melhorar eficiência energética investindo em tecnologias e processos que reduzam o consumo energético, bem como promover a autossuficiência investindo em geração própria, como solar, eólica ou biomassa.

Jaime Braga
Assessor da Direção da CIP
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Não existem medidas milagrosas para o que não se controla nem se consegue dispensar.

Apenas se podem encarar medidas de mitigação ou de redução parcial das dependências energéticas.

Para as empresas, será de recomendar a concretização do que já é conhecido:

  • Eficiência energética;
  • Autoprodução de eletricidade.

Para o abastecimento público por rede:

  • Gases renováveis num ritmo que a economia nacional absorva;
  • Manutenção dos três mercados - gás, combustíveis e eletricidade - pois só a flexibilidade e a diversidade podem garantir a segurança do abastecimento.
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