O setor elétrico está mesmo numa transição acelerada

O setor elétrico está mesmo numa transição acelerada

Os dados são reveladores do impressionante crescimento da energia solar fotovoltaica na Península Ibérica. Em 2018, registavam-se cerca de 5 GW instalados, número que evoluiu para 37 GW em 2024, com perspetivas de alcançar 150 GW entre 2030 e 2035, conforme as licenças administrativas já concedidas nos dois países ibéricos. Contudo, se em 2024 já presenciámos diversas horas com preços próximos de zero, o que podemos antever para 2030, quando a energia solar poderá ter triplicado ou quadruplicado a sua capacidade? A incidência de preços próximos de zero tornar-se-á muito mais frequente nas horas diurnas, afetando de maneira negativa o valor capturado pela energia solar fotovoltaica.

Por exemplo, na data de hoje, 25 de março de 2025, o preço médio de mercado é de 36€/MWh (fonte: OMIE), enquanto o valor capturado pela energia solar fotovoltaica é de meros 5,52€/MWh (fonte: OMIP). Para contextualizar, o preço médio capturado em 2024 foi de 45,56€/MWh em Espanha (fonte: S&P), o que representa uma diminuição de 40% em relação ao ano anterior. Os desafios que se apresentam são substanciais. É imperativo que se continuem a proporcionar condições favoráveis à implantação da energia solar fotovoltaica, mas isso não pode ser feito à custa da atual tendência de desvalorização, resultado da canibalização dos preços nas horas de maior produção solar.

Identifico somente duas alternativas plausíveis: incrementar a capacidade de armazenamento, que possibilitará a transferência de energia das horas solares para as noturnas, ou estabelecer leilões de potência solar onde os preços médios se situam na gama 20-25€/MWh, tomando como referência os resultados dos leilões realizados em Portugal e Espanha entre 2019 e 2021. Embora os leilões a 20-25€/MWh possam parecer vantajosos para o setor, a oferta de energia solar por si só não proporciona ao sistema a necessária potência de backup (comumente proveniente do gás natural), o que acarreta custos consideráveis e elevaria significativamente os preços médios anuais. Perante isto, a alternativa mais viável parece ser o incentivo ao armazenamento. Nesse contexto, foram criados incentivos financeiros de 100 M€ para a instalação de até 500 MW em baterias hibridizadas com fontes renováveis em Portugal, além de 150 M€ destinados a iniciativas similares em Espanha continental.

De salientar que Espanha apresenta um cenário promissor com pedidos de ligação de baterias que totalizam 25 GW, dos quais 15 GW já receberam autorização. Este fenómeno representa uma autêntica “revolução” que deve ser desenvolvida em paralelo pelos dois países ibéricos para evitar desequilíbrios que seriam prejudiciais para ambos. As infraestruturas de rede também precisam de evoluir para acompanhar essa tendência, através da divulgação de oportunidades para a ligação das baterias. Entretanto, toda esta dinâmica tem encontrado algumas barreiras devido a dificuldades administrativas e técnicas, embora já surjam perspetivas otimistas em Portugal, impulsionadas por iniciativas governamentais, como a criação da EMER (Estrutura de Missão para licenciamento das energias renováveis) e a implementação de diretrizes específicas de agilização, como o DL 99/2024. Desse modo, espera-se que resultados práticos sejam visíveis num futuro próximo.

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